Secretária de Saúde de Anápolis, Jaqueline Rocha relembra sua infância em um Brasil onde o atendimento público era limitado e reflete sobre a transformação que fez da saúde um direito universal.
Por Jaqueline Rocha
Secretária Municipal de Saúde de Anápolis
Uma antiga carteira de assistência à saúde, com mais de quatro décadas de história, guarda muito mais do que a fotografia de uma menina. Ela representa um período em que o acesso aos serviços de saúde no Brasil era restrito e estava diretamente relacionado à vinculação com a Previdência Social. Naquela época, a 8ª Conferência Nacional de Saúde ainda não havia acontecido, a Constituição Federal de 1988 não existia e milhões de brasileiros enfrentavam dificuldades para conseguir atendimento. Aquela menina da fotografia era eu. E, ao olhar para esse documento hoje, não vejo apenas uma lembrança da infância. Vejo o quanto o Brasil avançou e a responsabilidade que temos de preservar essas conquistas.
A transformação começou a ganhar força com o movimento da Reforma Sanitária e teve um marco fundamental na Constituição de 1988, que reconheceu a saúde como direito de todos e dever do Estado. Nascia uma nova concepção de assistência, posteriormente consolidada com a estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS), fundamentado na universalidade, integralidade e equidade. O atendimento deixou de depender da condição previdenciária do cidadão para se tornar um direito garantido constitucionalmente. Foi uma das maiores conquistas sociais da história brasileira, especialmente para aqueles que, durante décadas, permaneceram à margem do acesso aos serviços públicos de saúde.
Eu vivi essas duas realidades. Conheci um Brasil em que o acesso à saúde era limitado e acompanhei a construção de um sistema que nasceu com o compromisso de cuidar de todos. Aquela menina cresceu, estudou, formou-se em Biomedicina e construiu sua trajetória profissional até assumir a responsabilidade de atuar na gestão pública da saúde. Hoje, como secretária municipal de Saúde de Anápolis, compreendo que minha história pessoal está diretamente ligada à evolução do SUS. Não se trata apenas de uma escolha profissional, mas de uma experiência de vida que fortalece diariamente minha convicção sobre a importância da saúde pública.
Estar à frente da gestão municipal exige decisões difíceis, planejamento, responsabilidade com os recursos públicos e capacidade de enfrentar desafios que fazem parte da realidade de qualquer sistema de saúde. Mas aprendi que administrar a saúde não pode significar apenas acompanhar números, organizar estruturas ou avaliar indicadores. Por trás de cada atendimento existe uma pessoa. Por trás de cada paciente existe uma família, uma história, uma preocupação e, muitas vezes, a esperança de encontrar acolhimento e uma solução para seu sofrimento. É essa dimensão humana que precisa orientar nossas decisões.
Reconheço que os desafios são enormes. Garantir acesso, melhorar a qualidade dos serviços, fortalecer a prevenção, ampliar a eficiência da assistência e assegurar um atendimento digno exige trabalho permanente. Também sei que ainda existe uma distância entre o direito previsto na Constituição e a realidade enfrentada por muitos brasileiros. É justamente essa distância que precisamos reduzir todos os dias. Fortalecer o SUS significa trabalhar para que a população encontre, na prática, aquilo que a legislação assegura: atendimento com qualidade, respeito, dignidade e equidade.
Aquela menina da fotografia provavelmente não imaginava os caminhos que percorreria. Não sabia que um dia estaria à frente da saúde pública de uma cidade como Anápolis, participando de decisões capazes de impactar milhares de vidas. Mas a mulher que ela se tornou sabe exatamente por que escolheu essa missão. A carteira antiga permanece como símbolo de um tempo que não podemos esquecer e como lembrança de que os direitos conquistados precisam ser defendidos por meio de trabalho, compromisso e responsabilidade.
Hoje, quando olho para minha trajetória, tenho ainda mais certeza de que cuidar de pessoas é muito mais do que uma atribuição profissional. É um propósito de vida. Meu compromisso é continuar trabalhando para que o SUS cumpra sua missão de cuidar de todos, sem distinção, com humanidade e respeito. Porque conheço o passado, compreendo os desafios do presente e acredito no futuro que podemos construir.
Seguimos em frente, sem perder a força, o foco, a fé e a esperança.











