Ex-presidente da Câmara afirma que sacrificou projetos pessoais por Anápolis, admite erro estratégico e declara fim de vínculo com Roberto Naves.
Por Richelson Xavier
A entrevista do ex-vereador Leandro Ribeiro ao Jornal da Voz FM, no último sábado, foi mais do que uma retrospectiva de trajetória política. Foi um acerto de contas público. Sem rodeios, ele afirmou que o ex prefeito Roberto Naves “não cumpriu a sua palavra” e declarou que não mantém mais qualquer vínculo político com o antigo aliado.
A pergunta feita no estúdio foi direta. Leandro se sentia traído? Se pudesse voltar atrás, o que faria diferente? A resposta veio com tom de franqueza rara no meio político. “Cumpri totalmente o meu papel do acordo que nós fizemos. Dediquei e abracei a campanha de deputado federal acreditando que, lá na frente, seria cumprido o compromisso que foi feito comigo. Infelizmente, o ex prefeito Roberto Naves não cumpriu a sua palavra.”
A fala tem peso porque reconstrói uma sequência de decisões que moldaram sua trajetória recente. Leandro relembra que, em 2022, abriu mão de disputar uma vaga de deputado estadual para concorrer a deputado federal, dentro de um acordo político que previa, posteriormente, sua candidatura a prefeito. “Sacrifiquei uma candidatura acreditando na cidade que eu amo”, afirmou.
Ele sustenta que sua escolha foi estratégica e, ao mesmo tempo, idealista. Acreditava que Anápolis precisava de maior representatividade na Câmara Federal, onde, segundo destacou, concentra se 70 por cento dos recursos arrecadados no país pelo pacto federativo. “Nós precisávamos de 70 mil votos. Tivemos 25 mil dentro da cidade. Eu não me arrependo. Sacrifiquei acreditando na cidade.”
Ao citar números, Leandro provoca reflexão sobre o comportamento do eleitor anapolino. Ele lembra que diversos candidatos federais obtiveram votações expressivas na cidade e questiona quanto desses recursos retornaram em emendas parlamentares. “Qual desses deputados é de Anápolis? Um deputado federal tem cerca de 80 milhões de emendas impositivas por ano. Eu tenho certeza que nem perto de 50 por cento disso voltou.”
Há, contudo, um reconhecimento implícito de erro estratégico. A candidatura municipalizada a deputado federal não produziu o resultado esperado. Ele assume que priorizou a cidade, mas o eleitorado não respondeu na proporção necessária.
Outro ponto esclarecido na entrevista diz respeito ao convite para retornar ao governo estadual. Leandro fez questão de corrigir a narrativa. “Não foi pelo grupo do ex prefeito Roberto Naves. Foi a convite do governador Ronaldo Caiado. Ele ligou no meu celular, me convidou para jantar e me fez o convite para retornar.” Segundo ele, a decisão foi tomada após a definição de que não seria candidato a prefeito.
O rompimento político ficou explícito. “Eu não tenho nenhum vínculo com o Roberto Naves, não tenho nenhum acordo político com ele e não caminho em nenhum momento mais com ele.” A frase encerra um ciclo que marcou parte relevante da política anapolina nos últimos anos.
O tom da entrevista mistura frustração e reposicionamento. Leandro evita dramatizar o passado, mas deixa claro que houve quebra de compromisso. Ao mesmo tempo, tenta reconstruir sua imagem como alguém que honrou acordos e colocou a cidade como prioridade.
No ambiente político, declarações assim raramente são neutras. Elas sinalizam novos alinhamentos e indicam que o ex-vereador busca reposicionar se para os próximos movimentos eleitorais.
Resta saber se o eleitorado enxergará na autocrítica e na exposição pública de divergências um gesto de transparência ou apenas mais um capítulo das disputas internas que costumam marcar a política local. De uma forma ou de outra, a frase que ecoou no estúdio sintetiza o momento. “Ele não cumpriu a palavra.” Em política, poucas acusações são tão graves quanto essa.













