Vídeo de Márcio Corrêa com morador em situação de rua expõe drama humano, limites do poder público e a tensão entre acolhimento e ordem.
Foto: Reprodução/Instagram
O vídeo publicado no domingo (22) pelo prefeito Márcio Corrêa nas redes sociais vai além de uma ação pontual. Ele escancara um dos dilemas mais difíceis da gestão pública contemporânea: como acolher quem vive nas ruas sem romantizar o abandono nem normalizar a desordem.
A cena é simples e crua. Douglas, 36 anos, três anos vivendo nas ruas, uma ferida grave no calcanhar que o impede de andar direito, pais falecidos, família desfeita, histórico de álcool e drogas. Ele relata a morte do pai, a ausência da mãe, o enxerto mal sucedido na perna, a vergonha de não cuidar dos próprios filhos. “Eu não estrago a vida de ninguém, eu estrago a minha”, diz, em uma frase que resume o sentimento de autodestruição que marca muitos trajetos semelhantes.
Márcio Corrêa reage com empatia, mas também com condição. “Para mudar de vida, é preciso dar o primeiro passo”, afirma no vídeo. E estabelece um ponto central da conversa: ajuda exige compromisso. O prefeito deixa claro que o apoio da prefeitura está condicionado ao retorno de Douglas a uma instituição de acolhimento, com abrigo e acompanhamento. “Estender a mão é importante, mas é preciso querer segurá-la”, declara.
O diálogo revela uma tensão que raramente aparece com tanta transparência. De um lado, a compaixão. O prefeito leva Douglas para almoçar, providencia atendimento e promete acompanhamento. De outro, a exigência de responsabilidade. “Ninguém vence uma batalha dessas sozinho”, afirma. Ao mesmo tempo em que reconhece que há pessoas que querem transformação, também reforça que não haverá tolerância com crime e desordem.
Essa dualidade é o ponto mais relevante do episódio. A política pública para população em situação de rua não pode se limitar a caridade episódica, nem pode se transformar em permissividade. A fala do prefeito sinaliza essa linha. Ele distingue quem pede ajuda de quem insiste no caminho do crime. Afirma que vai insistir na recuperação de quem quer mudar, mas deixa claro que não aceitará práticas que prejudiquem comerciantes e moradores.
Há, ainda, um elemento simbólico importante. Douglas não é apresentado como estatística, mas como indivíduo. Filho de servidor público, com história, com passado de trabalho, com feridas físicas e emocionais. A exposição pública do caso gera debate. É legítimo divulgar esse tipo de situação? Para alguns, trata se de marketing político. Para outros, é prestação de contas e incentivo à mobilização social.
O fato é que o vídeo provoca reflexão. Márcio Corrêa afirma que fez um compromisso ao assumir o cargo: tentar recuperar quem quer ser recuperado. Reconhece que nem sempre será possível. E assume que a cidade precisa enfrentar o problema de forma organizada.
A questão que permanece é estrutural. Casos como o de Douglas não se resolvem apenas com boa vontade individual. Exigem rede de saúde mental, políticas de dependência química, reinserção no mercado de trabalho, acompanhamento familiar e fiscalização urbana. Exigem também equilíbrio entre acolhimento e responsabilidade.
O episódio expõe uma verdade incômoda. A rua não é destino natural de ninguém, mas também não se supera apenas com discurso. Se houver fé e disposição, como disse o prefeito, haverá apoio. O desafio é transformar esse apoio em política permanente e não em gesto isolado.













