Iniciativa substitui violência por solidariedade, envolve veteranos e calouros em arrecadação de alimentos e reforça que o futuro da universidade deve estar pautado em responsabilidade social.
Por Richelson Xavier
O Brasil ainda convive com notícias recorrentes de trotes violentos que mancham o início da vida universitária de muitos jovens. Casos de humilhação, agressão física e até tragédias fatais já ganharam destaque nacional, levantando o debate sobre os limites da tradição acadêmica e a necessidade de transformar essa prática em algo construtivo. É justamente nesse ponto que o Centro Universitário Fama, em Anápolis, tem mostrado que existe outro caminho: o trote solidário, que substitui a violência pela responsabilidade social.
Em entrevista ao Jornal da Voz e ao Portal Anápolis, o pró-reitor Reinan Oliveira destacou que a instituição há anos adota uma postura pioneira. A Fama transformou as boas-vindas aos calouros em um gesto de solidariedade, alinhado à Lei nº 22.311/2023, que proíbe trotes violentos em Goiás. “Acreditamos que o aluno que chega já traz um perfil de responsabilidade socioambiental. Quando apresentamos o trote solidário, tanto professores quanto estudantes recebem de forma muito positiva”, afirmou.
O formato é simples, mas poderoso: os alunos são convidados a arrecadar alimentos não perecíveis, como arroz, feijão, óleo, leite em pó e enlatados. Com esse material, são montadas cestas básicas que depois são distribuídas a famílias em situação de vulnerabilidade. A própria instituição complementa os itens que faltam, garantindo que nenhuma cesta fique incompleta. Mais do que um gesto pontual, trata-se de um exercício prático de cidadania, que conecta a vida acadêmica com as demandas sociais do entorno.
A iniciativa vai além do assistencialismo. Ela envolve diretamente os veteranos, por meio das atléticas, e garante a participação dos calouros em um processo de integração saudável. Nesse modelo, a recepção deixa de ser marcada por humilhações e passa a ser um momento de cooperação. “Vinculamos as atléticas ao projeto para que os veteranos incentivem os calouros a participar. Isso é integração de verdade, alinhada ao nosso programa Integra Fama, que mostra desde o primeiro contato que nossa realidade acadêmica está ligada à responsabilidade social”, explicou o pró-reitor.
Ao refletir sobre essa experiência, é impossível não reconhecer o contraste entre dois cenários: de um lado, universidades que ainda convivem com o estigma do trote violento; de outro, instituições que entendem o papel social da educação e assumem protagonismo em iniciativas que geram impacto coletivo. A Fama mostra que é possível acolher os novos alunos com dignidade e, ao mesmo tempo, estender a mão para quem mais precisa.
No fim das contas, o trote solidário é mais do que um gesto simbólico. Ele é uma declaração de valores. Ao trocar violência por empatia, a Fama reafirma que a universidade não deve ser apenas um espaço de aprendizado técnico, mas também de formação cidadã. E talvez esse seja o verdadeiro trote que toda instituição deveria oferecer: a oportunidade de mostrar, desde o primeiro dia de aula, que a transformação social começa dentro da sala de aula — e pode se espalhar para muito além dos muros da universidade.